130km. Essa foi a distância que percorri (ida e volta) para assistir um espetáculo de dança sem igual.
Vou te contar:

(abrem-se as cortinas)
Curiosidade
Medo
Caça
Fogo
Sociedade
Poder
Conflito
Guerra
Destruição
Caos
Renascimento
Reconstrução
Esperança
(fecham-se as cortinas)

Foi assim que, em 70 minutos, a Cia de Dança Deborah Colker contou a história da nossa passagem pelo planeta Terra. Em determinado momento pensei: “que bom que ainda deve estar na metade.” Era o fim.
A platéia ficou vidrada do momento em que as cortinas se abriram até o momento em que elas fecharam, marcando o encerramento da performance. A sensação era de que todos nós prendemos a respiração por um segundo e nos deixamos absorver pela arte, pela dança potente, pelos sons e ritmos brasileiros que dão outra cor à obra clássica de Igor Stravinsky.
A peça do Stravinsky – a partitura da Sagração da Primavera – serve de pano de fundo para a performance. E aqui acontece a quebra com o clássico: ao invés do balé que tradicionalmente a acompanha, temos a dança moderna e a representação da evolução da nossa sociedade sob a ótica dos povos originários brasileiros (pelo menos foi como interpretei). As costuras da sonoridade de uma obra tradicionalmente executada por grandes orquestras com sons rudimentares e rústicos – sons do dia a dia, sons da natureza – traz uma ruptura ainda maior. E no fim, sinto que entendo por que o título do espetáculo é Sagração (sem a Primavera): não é sobre um obra clássica, mas sobre a vida aqui no solo tupiniquim.
Agradeço imensamente a indicação que recebi de uma amiga muito querida a respeito do espetáculo. Não fosse ela eu não teria assistido. Cheguei em casa com a ânsia de colocar um pouco da emoção pra fora, até perceber que me faltavam as palavras para tal.
Se tiveres oportunidade, assista. É uma experiência profunda, dinâmica, questionadora.