Raphael Baldi in Photography 5 minutos

A primeira foto!

O ano era 2009. A situação financeira da família estava melhorando. Eu estava num momento mais equilibrado de vida, depois de trabalhar de forma descompassada por alguns anos (e que carreira começa de forma diferente?). Àquela época eu vi um pouco de vento soprar minha chama da fotografia. Ainda desorientado na área, fiz o que outros tantos fazem: comprei uma câmera “de verdade”. Essa expressão está entre aspas porque hoje entendo que a qualidade das fotos está muito mais no fotógrafo do que no equipamento.

Dê o seu celular para um fotógrafo experiente e fique entorpecido tentando entender como você não consegue atingir os mesmos resultados. Se você não tem a mesma vivência, pegue uma Nikon D8501 equipada com uma lente EF 24-70mm2 (R$ 40.000,00 em equipamentos) e se sinta fracassado por não conseguir sequer reproduzir as fotos que o fotógrafo clicou com seu celular.

O equipamento que comprei foi um kit da Canon, com o corpo EOS Rebel XSi e a tradicional lente 18-55mm que acompanha a maioria dos pacotes da marca. Nos primeiros dias eu estava muito animado. Foi num deles que fiz essa foto do Ravi, o cachorrinho da minha mãe que, na época, tinha dois anos.

Ravi, observando o fotógrafo

Ainda gosto dessa foto. Eu não entendia absolutamente nada de composição, profundidade de campo, ISO, velocidade do obturador. Depois de ler o livro do Cara da Foto na semana passada eu tenho uma pista de como cheguei nesse resultado. Em primeiro lugar, eu estava presente no momento. Lembro da quantidade de mordidas que tomei do Ravi. Lembro da quantidade de vezes que ele puxou minhas mãos - e a câmera - com a pata. Lembro, também, que eu não estava gerando cobranças ou expectativas: eu estava brincando com o equipamento, sem limites e sem amarras.

Olhando, hoje, talvez eu tivesse buscado reduzir o ISO. Cliquei com 800, o que gerou um pouco de ruído na imagem. Lembro que eu contava com uma quantidade razoável de luz entrando pela janela (à direita da foto). A profundidade de campo sinto que ficou legal: deixei a abertura em f/5.6, máxima para o zoom que usei. A velocidade do obturador ainda ficou razoável para fazer a captura sem um tripé: 1/60. Sobre a composição, sinto que ficou um pouco poluída. Talvez fosse legal não ter um pedaço de almofada vazando no topo do frame. Pegar o foco nos olhos do Ravi, ao invés do focinho, também teria ajudado. Hoje, entendendo um pouco mais dos padrões utilizados na fotografia, vejo que por sorte coloquei o focinho dele quase em cima da intersecção das linhas dos terços. Refletindo um pouco, talvez não tenha sido tanto por sorte, mas porque dessa forma o enquadramento ficou mais agradável. Seres humanos gostam de equilíbrio e harmonia.

Agora, o que me levou a ficar 12 anos longe da câmera? Sem dúvida a complicação. Depois de brincar uns dias com a câmera e entender um pouco dos controles eu comecei a sentir falta de entender os fundamentos ou, ainda melhor, os fatores que contribuem para a produção de boas fotos. E foi ai que caí na armadilha “fotografar é complicado”: a maioria dos materiais que encontrei falava da necessidade de equipamentos caros, mil e uma lentes, cursos com grandes mestres, milhares de padrões e regras.

Refletindo sobre o tema e com mais maturidade me pergunto: por que essas pessoas tinham esse direcionamento? Será que era uma forma de se vingarem por terem gasto rios de dinheiro no ofício? Será que era uma tentativa desesperada de fotógrafos medíocres em garantir que pessoas com potencial não entrassem para o mercado? Será que era, ainda, uma forma de garantir que as pessoas sempre contratem fotógrafos “profissionais”? Qualquer que seja a motivação que essas minhas primeiras fontes de conhecimento tinham, acabei me afastando e pendurando a câmera num canto.

No final do ano passado comecei um curso online, o iPhone Photo Academy, da iPhone Photography School. Durante o primeiro exercício cheguei no resultado abaixo. Não foi uma foto só. Não foi um dia só. Foi uma construção e muita atenção ao meu entorno. O legal é que tanto o Emil Pakarklis (iPhone Photography School) quanto o Ricardo Polesso (Cara da Foto) compartilham do mesmo processo para chegar até aqui - e seguir além: primeiro tu percebes como é legal fotografar e entende se tu tens ou não paixão pela fotografia, depois tu entendes alguns princípios e, no final, aprende algumas técnicas. O engraçado é que agora, com mais maturidade, vejo que é muito parecido com programação. Quando alguém me pergunta o que fazer para virar programador de jogos eu respondo: “vai programar!”. De nada adianta a pessoa cansar a cabeça aprendendo um milhão de técnicas de desenvolvimento sem entender se aquilo é de fato pra ela.

Árvore nua

Hoje a fotografia volta para minha vida como um exercício de mindfulness. Trabalhando com tecnologia é fácil perdermos o foco no presente, no mundo ao nosso redor. Tudo muda muito rápido. Há muito para aprender e pouco tempo a perder. Ainda mais trabalhando em uma empresa tão boa quanto a Aquiris, com um time super capaz, em projetos super audaciosos. Entendo, agora, que fotografar é muito menos sobre apertar um botão e fazer ajustes num aparelho. É muito mais sobre estar presente e se deixar ver aquilo que nos cerca.